A Austrália e a União Europeia assinaram, nesta terça-feira, um acordo de livre comércio após oito anos de negociações, eliminando tarifas sobre a grande maioria dos produtos e abrindo caminho para um acesso mais facilitado da Europa aos minerais críticos australianos.
O pacto surge num contexto de tensões comerciais globais e de crescente preocupação ocidental com a dependência da China no fornecimento de terras raras e outros recursos estratégicos.
Apesar do avanço, o acordo mantém restrições em áreas sensíveis, sobretudo no setor agrícola. Exportações australianas como carne bovina e ovina estarão sujeitas a quotas, o que gerou críticas de agricultores australianos, que consideram o acesso ao mercado europeu abaixo do esperado. Por outro lado, produtores franceses avaliam que as concessões foram excessivas, evidenciando divergências internas sobre o equilíbrio do pacto.
O acordo prevê a eliminação de mais de 99% das tarifas sobre bens exportados pela União Europeia para a Austrália, o que poderá gerar uma economia anual de cerca de 1 bilhão de euros para as empresas europeias. Estima-se ainda que as exportações da UE para o mercado australiano possam crescer até 33% na próxima década.

Do lado australiano, o primeiro-ministro Anthony Albanese destacou que o acordo poderá representar um impacto económico de aproximadamente 10 bilhões de dólares australianos por ano. A redução de tarifas sobre minerais críticos é vista como um elemento central para fortalecer cadeias globais de abastecimento e garantir maior estabilidade no fornecimento desses recursos.
Parceria estratégica e redução de riscos
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sublinhou que o acordo vai além do comércio, incluindo também compromissos de cooperação em segurança e defesa. Segundo afirmou, a aproximação entre as duas partes reflete uma visão comum sobre os desafios globais e a necessidade de diversificar parceiros estratégicos.
Neste contexto, a parceria em minerais críticos ganha relevância, numa altura em que Europa e Austrália procuram reduzir a exposição a um único fornecedor dominante. A estratégia visa aumentar a resiliência económica e mitigar riscos associados a choques geopolíticos e comerciais.
Setor agrícola e pontos de tensão

Entre os temas mais sensíveis das negociações esteve o acesso ao mercado agrícola. A União Europeia concordou em abrir duas quotas tarifárias para carne bovina australiana, totalizando 30.600 toneladas métricas, sendo que cerca de 55% desse volume poderá entrar sem impostos. Ainda assim, o modelo de quotas continua a ser alvo de críticas tanto na Austrália quanto na Europa.
Enquanto isso, tarifas australianas serão eliminadas de imediato para produtos europeus como vinhos, frutas, legumes e chocolates, e gradualmente para queijos ao longo de três anos. O acordo também prevê a proteção de indicações geográficas europeias, como produtos tradicionais, reforçando a valorização de marcas regionais.
Impacto geopolítico e projeção no Indo-Pacífico
O pacto reflete também o crescente envolvimento da União Europeia na região do Indo-Pacífico, após acordos recentes com países como Indonésia e Índia. Além disso, surge num cenário de aumento de tarifas por parte dos Estados Unidos e de reconfiguração das alianças comerciais globais.
Com forte potencial económico e estratégico, o acordo entre Austrália e União Europeia consolida uma parceria que visa não apenas impulsionar o comércio, mas também reforçar a segurança económica e reduzir vulnerabilidades num cenário internacional cada vez mais competitivo.

