Senegal, Moçambique e Malawi surgem como os países africanos com maior probabilidade de enfrentar incumprimento da dívida soberana nos próximos dois anos, num momento em que várias economias do continente lidam com o agravamento das contas públicas provocado pela subida global dos preços do petróleo.



A pressão aumentou após os choques energéticos ligados ao conflito envolvendo o Irão, que elevaram custos de importação, pressionaram moedas locais e tornaram mais caro o financiamento externo. Para países altamente endividados, o cenário reacende receios de uma nova vaga de defaults em África.
Desde 2020, o continente já registou quatro incumprimentos soberanos: Gana, Zâmbia, Etiópia e Chade. Todos os casos exigiram processos de reestruturação no âmbito do G20, refletindo o peso crescente da dívida combinado com choques externos e fragilidades fiscais.
Segundo David Cowan, economista-chefe da Citi para África, o Senegal enfrenta uma situação particularmente sensível depois da descoberta de passivos ocultos no final de 2024. Embora o país tenha conseguido manter estabilidade este ano, o risco de incumprimento até 2027 continua elevado.

Moçambique e Malawi apresentam ameaças ainda mais imediatas. Ambos enfrentam forte desvalorização cambial, o que aumenta drasticamente o custo do serviço da dívida denominada em moeda estrangeira. Esse fator pode levar os dois países a níveis insustentáveis de pagamento já nos próximos meses.
Apesar disso, analistas consideram que eventuais reestruturações em Moçambique e Malawi podem ser mais rápidas. No caso do Malawi, grande parte da dívida está concentrada em credores multilaterais e bilaterais. Já Moçambique possui menor volume de obrigações internacionais complexas em circulação.
Mesmo com esses riscos, especialistas afirmam que África enfrenta melhor o atual choque do que em crises anteriores. A recente emissão inaugural de eurobônus da República Democrática do Congo mostrou que ainda existe apetite dos investidores por ativos africanos.
Enquanto isso, o Quénia pode recorrer a maior flexibilidade cambial para absorver o impacto da alta do petróleo. O panorama geral mostra que o continente continua vulnerável, mas com respostas mais maduras diante de uma nova tempestade financeira global.

