O aumento das taxas de juro globais, impulsionado pelas tensões no Oriente Médio e pelo choque no fornecimento de energia, está a colocar pressão directa sobre o modelo financeiro das grandes empresas tecnológicas dos Estados Unidos, justamente num momento em que o sector acelera um dos maiores ciclos de investimento da sua história.
As chamadas “hiperescaladoras”, como Apple e Microsoft, deverão investir cerca de 630 mil milhões de dólares este ano em infra-estruturas de IA, incluindo centros de dados, chips e computação em nuvem. Este volume representa mais de 2% do PIB norte-americano, podendo ultrapassar os 800 mil milhões de dólares no próximo ano, o equivalente a quase 3% da economia.

Apesar de ainda manterem reservas robustas de liquidez estimadas em mais de 350 mil milhões de dólares as grandes tecnológicas estão a consumir rapidamente o seu fluxo de caixa. Dados apontam que cerca de 70% do fluxo operacional já está a ser direccionado para despesas de capital, o que limita a capacidade de autofinanciamento e obriga estas empresas a recorrer cada vez mais ao endividamento.
Segundo estimativas de instituições como Morgan Stanley e Bank of America, a emissão de dívida por empresas tecnológicas pode atingir 175 mil milhões de dólares em 2026, um aumento significativo face aos níveis históricos. Este movimento reflecte uma mudança estrutural no financiamento do sector, que passa de uma base centrada em liquidez para maior dependência dos mercados de crédito.

O cenário torna-se mais delicado à medida que os juros sobem. O rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA a 10 anos registou uma das maiores subidas dos últimos anos, elevando o custo de financiamento e pressionando os balanços das empresas. Paralelamente, os investidores começam a questionar a rentabilidade dos investimentos em IA, com quedas recentes em índices tecnológicos e maior volatilidade nos mercados.
A combinação de juros elevados, aumento do endividamento e incerteza quanto ao retorno dos investimentos pode gerar um efeito sistémico, dado o peso das grandes tecnológicas na economia global. Caso os planos de investimento avancem, o impacto poderá sustentar o crescimento económico; porém, se forem travados, o risco de desaceleração aumenta, criando um cenário de pressão simultânea sobre inflação, emprego e mercados financeiros.

