Governos de várias economias mundiais estão a adoptar medidas de emergência para limitar os efeitos da escalada da guerra envolvendo o Irão, que provocou uma forte subida dos preços do petróleo nos mercados internacionais e reacendeu receios de uma crise energética global.
A tensão geopolítica levou a um aumento recorde das cotações do crude na segunda-feira, depois de importantes produtores reduzirem a produção e de o Estreito de Ormuz — uma das principais rotas mundiais de transporte de petróleo — permanecer praticamente fechado. O cenário alimenta preocupações sobre interrupções prolongadas no fornecimento de energia.
Diante da situação, os ministros das Finanças do Grupo dos Sete (G7) deverão discutir a possibilidade de uma libertação coordenada de reservas estratégicas de petróleo, numa tentativa de estabilizar os mercados e reduzir o impacto sobre as economias e os consumidores.

Na Coreia do Sul, altamente dependente de importações energéticas do Médio Oriente, o presidente Lee Jae Myung anunciou que o governo poderá limitar os preços dos combustíveis pela primeira vez em quase três décadas. O chefe de Estado alertou ainda para o risco de compras em pânico e classificou a crise como “um fardo significativo para a economia”, devido à forte dependência do país do comércio internacional e do petróleo importado.
Também o Japão, que importa cerca de 95% do seu petróleo do Médio Oriente, colocou em prontidão as suas reservas estratégicas. Fontes parlamentares indicam que o governo já instruiu instalações de armazenamento a prepararem-se para uma eventual libertação de crude, embora nenhuma decisão oficial tenha sido ainda tomada. O país dispõe de reservas suficientes para cobrir aproximadamente 354 dias de consumo.
Outros países asiáticos adoptaram medidas preventivas. O Vietname eliminou tarifas de importação sobre combustíveis para reduzir os custos internos, enquanto o Bangladesh decidiu encerrar temporariamente universidades como forma de poupar electricidade e combustível. Já a China terá orientado refinarias a suspender exportações de combustíveis e tentar cancelar carregamentos previamente comprometidos.
Nos Estados Unidos da América, o presidente Donald Trump procurou minimizar as preocupações com a subida dos preços da gasolina, que aumentaram cerca de 11% na última semana. Entretanto, o líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, apelou à libertação de petróleo da Reserva Estratégica norte-americana para aliviar a pressão sobre o mercado.

A cotação do petróleo Brent chegou a disparar cerca de 25%, num dos maiores aumentos diários já registados, impulsionado pelos receios de redução na oferta global. Entre os factores que alimentam a subida estão os cortes de produção no Kuwait e no Iraque, bem como os riscos associados ao conflito na região do Golfo.
A instabilidade agravou-se depois de o Irão anunciar Mojtaba Khamenei como sucessor do líder supremo Ali Khamenei, decisão que pode intensificar tensões com Washington. Ao mesmo tempo, ataques a infra-estruturas petrolíferas iranianas aumentaram o receio de represálias contra instalações energéticas na região.
No Bahrein, a empresa estatal Bapco Energies declarou força maior após um ataque ao complexo da refinaria local. Analistas alertam que a situação pode agravar-se caso outros produtores sejam obrigados a reduzir a produção.
Segundo especialistas da consultora energética Kpler, o mercado reúne actualmente “todos os ingredientes para uma tempestade perfeita”, com cortes de produção no Golfo, interrupções logísticas e um pessimismo crescente quanto a uma rápida resolução do conflito.

Dados da indústria indicam que o Iraque já reduziu a produção nos seus principais campos do sul em cerca de 70%, para aproximadamente 1,3 milhão de barris por dia. O Catar, segundo maior exportador mundial de gás natural liquefeito, suspendeu igualmente exportações de GNL, enquanto analistas admitem que Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita poderão enfrentar dificuldades semelhantes se o bloqueio do Estreito de Ormuz persistir.
A evolução da crise energética está a ser acompanhada com atenção pelos mercados financeiros globais, uma vez que uma interrupção prolongada no fornecimento de petróleo poderá pressionar a inflação, desacelerar o crescimento económico e aumentar a volatilidade nos mercados internacionais.

