A França está a redirecionar a sua estratégia de fornecimento de urânio em África, voltando-se para o Botswana após perder o acesso à mina de SOMAIR, no Níger, onde detinha uma participação significativa. A mudança ocorre num momento em que a Europa enfrenta crescente pressão para garantir fontes alternativas de combustível nuclear, essenciais para a sua matriz energética.
O grupo nuclear francês Orano iniciou contactos diplomáticos discretos para explorar o potencial mineiro do Botswana, numa tentativa de substituir o fornecimento perdido. A decisão surge na sequência da nacionalização da mina SOMAIR pelo governo militar do Níger, que retirou à empresa francesa o controlo operacional e a licença de exploração.
A perda do ativo representa um golpe significativo para a estratégia energética francesa, sobretudo tendo em conta que cerca de 1.500 toneladas de urânio, avaliadas em aproximadamente 270 milhões de dólares, permaneciam na mina no momento da ruptura. O governo nigerino justificou a decisão com alegações de práticas injustas e exploração prolongada, acusando a França de beneficiar desproporcionalmente dos recursos naturais do país.


Perante este cenário, o Botswana surge como uma alternativa estratégica, com reservas estimadas em cerca de 800 mil toneladas de urânio, incluindo o depósito de Letlhakane, considerado um dos maiores ainda não explorados a nível mundial. O país tem intensificado esforços para diversificar a sua economia, tradicionalmente dependente dos diamantes, apostando agora no sector nuclear.
A Orano já terá obtido licenças de exploração que abrangem aproximadamente 15 mil quilómetros quadrados no distrito de Ghanzi, sinalizando um avanço concreto nas negociações. Ainda assim, persistem desafios técnicos, regulatórios e ambientais que poderão atrasar o desenvolvimento de uma indústria de urânio plenamente operacional no país.
A reconfiguração geopolítica no Níger, após o golpe de Estado de 2023, tem acelerado a procura por novos parceiros e rotas de fornecimento. A junta militar rompeu acordos com a França e reforçou o controlo sobre os recursos naturais, defendendo maior soberania económica e criticando décadas de exploração estrangeira.

Ao mesmo tempo, o aumento da procura global por energia nuclear, impulsionado por metas de descarbonização, tem intensificado a competição por urânio. A França, que depende fortemente da energia nuclear, procura garantir estabilidade no fornecimento, reforçando parcerias em África e noutras regiões estratégicas.
Este reposicionamento evidencia não apenas a importância crescente dos recursos africanos no cenário energético global, mas também os riscos políticos e regulatórios associados à exploração mineira internacional, sobretudo em contextos de instabilidade e mudanças de poder.

