Os Estados Unidos estão próximos de alcançar um acordo com o Mali para retomar missões de vigilância aérea no espaço do país africano com o objectivo de recolher informações sobre grupos jihadistas ligados à Al-Qaeda, segundo fontes actuais e antigas do governo norte-americano.
O entendimento permitirá que Washington volte a realizar sobrevoos com aeronaves e drones para monitorar actividades de grupos armados no território malinês, onde insurgências têm aumentado nos últimos anos.
Suspensão de sanções abre caminho ao acordo
No mês passado, Washington deu o primeiro passo para viabilizar o entendimento ao suspender sanções impostas ao ministro da Defesa do Mali e a outros altos responsáveis acusados de manter ligações com mercenários russos.
A medida foi considerada um gesto importante pelo governo de Bamako e poderá abrir caminho para que os Estados Unidos recebam autorização para realizar missões de recolha de inteligência sobre o vasto território do país.

O governo do Mali elogiou a decisão tomada em 27 de Fevereiro, afirmando que ela pode contribuir para “melhorar as relações entre os nossos dois países”, reiterando ao mesmo tempo o respeito pela soberania nacional.
Combate ao jihadismo e busca por piloto sequestrado
Entre os objectivos de Washington está também a localização de um piloto norte-americano sequestrado por homens armados enquanto trabalhava para missionários cristãos no vizinho Níger.
Autoridades acreditam que o piloto esteja actualmente detido no Mali pelo grupo jihadista Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin, uma filial regional da Al-Qaeda que tem expandido a sua actuação no Sahel.


Segundo dados do grupo de monitorização de conflitos Armed Conflict Location & Event Data Project, o JNIM tem conduzido campanhas de sequestro de cidadãos estrangeiros para financiar as suas operações na África Ocidental.
Washington tenta reconstruir relações com Bamako
Os contactos diplomáticos entre os dois países intensificaram-se recentemente. O principal enviado dos EUA para África, Nick Checker, visitou o Mali no mês passado para se reunir com o ministro das Relações Exteriores malinês, Abdoulaye Diop.

Segundo o Departamento de Estado dos Estados Unidos, a visita teve como objectivo transmitir o desejo de Washington de “traçar um novo rumo” na relação bilateral após tensões surgidas durante administrações anteriores.
A mudança de postura ocorre num momento em que vários países do Sahel, incluindo Burkina Faso e Níger, se afastaram do Ocidente e passaram a procurar apoio de segurança da Rússia.
Insurgência jihadista cresce no Sahel
O Mali enfrenta uma crescente insurgência armada liderada por grupos ligados à Al-Qaeda e ao chamado Estado Islâmico.
Nos últimos meses, militantes têm realizado ataques contra minas de ouro, infraestruturas e rotas estratégicas, provocando perturbações económicas e dificuldades no abastecimento de combustíveis na capital Bamako.
Analistas indicam que a cooperação com os Estados Unidos poderá ajudar o governo malinês a melhorar as suas capacidades de inteligência e vigilância, áreas em que as forças locais apresentam limitações.
Vertente económica do conflito
Além do impacto na segurança, a instabilidade no Mali tem reflexos significativos na economia do país e da região do Sahel.
O Mali é um dos maiores produtores de ouro de África e ataques de grupos armados a minas e estradas têm afectado a produção e o transporte do metal, uma das principais fontes de receita nacional.
A insegurança também aumenta os custos logísticos, reduz o investimento estrangeiro e afecta cadeias comerciais regionais. A eventual retoma das operações de vigilância dos Estados Unidos poderá contribuir para melhorar o controlo territorial e criar condições mais estáveis para as actividades económicas e para o sector mineiro no país.

