O comportamento divergente entre a queda de 3% nas transferências a crédito e o forte crescimento dos pagamentos electrónicos em Angola revela uma transformação estrutural no sistema financeiro, marcada pela migração acelerada para canais digitais. Dados da Empresa Interbancária de Serviços indicam que, apesar da redução no número de operações do Sistema de Transferências a Crédito (STC), o valor movimentado cresceu 28,7%, atingindo 2,33 biliões de kwanzas, sinalizando uma concentração em transacções de maior montante e possível mudança no perfil dos utilizadores.
Em paralelo, a rede Multicaixa consolidou-se como principal motor da digitalização financeira, ao registar 356,7 milhões de operações num total de 4,73 biliões de kwanzas em Março. O crescimento de 33,9% em valor evidencia não apenas maior adopção, mas também um aumento da confiança nos meios electrónicos, com destaque para os canais de mobile e internet banking, responsáveis por mais de 65% das operações.


Do ponto de vista empresarial, este movimento traduz-se numa mudança profunda no ecossistema de pagamentos, com impacto directo em bancos, fintechs e comércio. As transferências dentro da rede Multicaixa cresceram mais de 70% em volume, enquanto os pagamentos dispararam, impulsionados sobretudo pelo sector privado, que registou aumentos superiores a 300%. Este dinamismo sugere maior formalização da economia e integração de empresas em sistemas digitais de cobrança e liquidação.
A evolução do serviço KWiK reforça esta tendência, ao apresentar um crescimento de 177,4% nas transferências, totalizando 12,8 milhões de operações. A adopção de soluções instantâneas indica uma procura crescente por rapidez, conveniência e redução de custos transaccionais, elementos críticos para a competitividade económica num ambiente cada vez mais digital.

Numa leitura crítica, os dados apontam para uma modernização acelerada do sistema financeiro angolano, mas também levantam desafios relacionados à inclusão financeira, segurança digital e capacidade regulatória. O crescimento exponencial dos pagamentos electrónicos exige investimentos contínuos em infra-estrutura, literacia digital e mecanismos de protecção contra fraude, sob pena de o avanço tecnológico não se traduzir plenamente em ganhos sustentáveis para a economia real.

