O conflito em curso no Médio Oriente voltou a expor a vulnerabilidade de países produtores de petróleo que ainda dependem fortemente da importação de combustíveis refinados. Em Angola, o tema ganha particular relevância, numa altura em que o Governo procura acelerar a expansão da capacidade nacional de refinação.
O ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano, afirmou que o Executivo está a adoptar uma abordagem de “esperar para ver” diante da volatilidade do mercado petrolífero internacional, apesar de o Brent estar a ser negociado muito acima do valor de referência de 61 dólares por barril, utilizado na elaboração do Orçamento Geral do Estado para 2026.
Guerra e volatilidade do petróleo
Os preços do crude têm oscilado desde o início da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irão, bem como após o encerramento do estratégico Estreito de Ormuz, no início de março.
O Brent chegou a atingir 119 dólares por barril, o valor mais elevado desde 2022, antes de recuar para cerca de 98 dólares, descendo posteriormente para 86 dólares no decorrer da semana.

Analistas apontam que a forte volatilidade está associada a receios de interrupções no abastecimento global e à possibilidade de intervenção da Agência Internacional de Energia, que estaria a avaliar uma eventual libertação de reservas estratégicas de petróleo.
Angola beneficia… mas continua vulnerável
Com os preços do petróleo mais altos, Angola — o terceiro maior produtor de petróleo de África — poderá beneficiar de receitas adicionais no sector petrolífero.
A produção nacional atingiu cerca de 1,027 milhões de barris por dia em dezembro de 2025 e deverá manter-se relativamente estável ao longo de 2026.
No entanto, o país continua exposto a uma fragilidade estrutural: a dependência da importação de combustíveis refinados.
Embora o petróleo represente cerca de 90% das exportações angolanas, o país importa aproximadamente 70% dos combustíveis que consome, situação que pode aumentar significativamente os custos em períodos de alta dos preços internacionais.
Investimento em refinação ganha prioridade
Perante este cenário, o Governo tem intensificado os investimentos no sector de refinação. A estratégia nacional prevê aumentar a capacidade de processamento para cerca de 445 mil barris por dia.

Actualmente, Angola conta com duas unidades principais: Refinaria de Luanda, com capacidade aproximada de 65 mil barris por dia, refinaria de Cabinda, com cerca de 60 mil barris por dia para reduzir a dependência externa, estão também em desenvolvimento novos projectos estratégicos, incluindo: Refinaria do Lobito, com capacidade prevista de 200 mil barris por dia, cuja entrada em operação está prevista para 2027 Uma nova refinaria no Soyo, projectada para processar cerca de 100 mil barris por dia.
A petrolífera estatal Sonangol está actualmente em negociações com investidores chineses para garantir um financiamento potencial de 4,8 mil milhões de dólares destinado à conclusão da refinaria do Lobito, cujo investimento total está estimado em 6,2 mil milhões de dólares.
Ganhos do petróleo podem financiar nova capacidade
A actual subida dos preços do crude poderá dar ao Governo angolano maior margem fiscal para acelerar estes projectos. Contudo, especialistas alertam que parte dessas receitas adicionais poderá ser absorvida pelo aumento da factura de importação de combustíveis.
Mesmo assim, o momento é visto como uma oportunidade para reforçar a estratégia de industrialização do sector energético.
Conferência petrolífera em momento estratégico
Neste contexto, a conferência Angola Oil & Gas Conference 2026 deverá assumir um papel central no debate sobre o futuro do sector.
O evento está marcado para 8 a 10 de setembro, em Luanda, e deverá reunir investidores, empresas energéticas e decisores políticos com o objetivo de mobilizar financiamento e acelerar projectos estratégicos.
Num cenário global marcado por tensões geopolíticas e volatilidade energética, analistas defendem que a aposta de Angola na refinação poderá transformar a actual dependência externa numa oportunidade de desenvolvimento industrial e maior segurança energética.

