A emissão de Bilhetes do Tesouro em Angola fixou-se em 301,17 mil milhões de kwanzas no quarto trimestre de 2025, registando uma queda acentuada de 57% face ao trimestre anterior e uma redução de 54% em termos homólogos, num sinal claro de ajustamento na estratégia de financiamento interno do Estado.
Os dados, divulgados pelo Ministério das Finanças de Angola no Relatório de Execução do Orçamento Geral do Estado, indicam que este instrumento representou apenas 14% do total das emissões de dívida interna no período, perdendo peso face às Obrigações do Tesouro, que assumiram um papel dominante na captação de recursos.
No mesmo período, as Obrigações do Tesouro atingiram 1,90 biliões de kwanzas, correspondendo a 86% das emissões internas, apesar de uma redução trimestral de 27%. Em termos homólogos, contudo, este instrumento registou um crescimento superior a 100%, evidenciando uma orientação crescente para financiamento de médio e longo prazo, com impacto directo na gestão do perfil da dívida pública.

No global, as emissões de dívida interna totalizaram 2,21 biliões de kwanzas, menos 55% face ao terceiro trimestre, mas com um aumento de 50% em relação ao mesmo período de 2024, num contexto de ajustamento das necessidades de financiamento e de maior selectividade na captação de recursos.
O serviço da dívida interna acompanhou esta tendência de redução, situando-se em 955,69 mil milhões de kwanzas, menos 63% em cadeia trimestral e menos 71% em termos homólogos, reflectindo menor pressão imediata sobre as contas públicas, sobretudo ao nível do pagamento de capital e juros.
Ainda assim, o stock da dívida interna manteve-se elevado, fixando-se em 16,96 biliões de kwanzas até dezembro de 2025, com uma ligeira redução face ao trimestre anterior, mas um crescimento de 27% em comparação com o mesmo período do ano anterior, evidenciando a acumulação de passivos ao longo do tempo.
Paralelamente, o financiamento externo registou um aumento expressivo, com captações na ordem de 6,03 biliões de kwanzas, mais do que duplicando face ao trimestre anterior e ao período homólogo, numa estratégia que reforça o recurso a fontes internacionais. Os desembolsos foram distribuídos entre credores comerciais, eurobonds, dívida multilateral e bilateral, sem garantias associadas ao petróleo.

O serviço da dívida externa também acelerou, atingindo 5,12 biliões de kwanzas no período, impulsionado sobretudo pelo aumento das amortizações, o que evidencia uma maior pressão financeira associada ao endividamento externo.
Com isso, o stock da dívida externa subiu para 43,26 biliões de kwanzas, elevando o total da dívida governamental para 60,23 biliões de kwanzas, equivalente a cerca de 66 mil milhões de dólares, dos quais apenas 28% correspondem à componente interna.
Este cenário evidencia uma reconfiguração da política de endividamento, com menor recurso a instrumentos de curto prazo e maior dependência de financiamento externo e de títulos de maturidade mais longa. Embora esta estratégia possa contribuir para melhorar o perfil da dívida e reduzir riscos de refinanciamento imediato, aumenta a exposição do país a choques externos, nomeadamente cambiais e de mercado.

