A escalada dos preços dos fertilizantes no mercado internacional está a colocar Angola sob crescente pressão agrícola, com previsões de aumentos entre 30% e 40% na próxima campanha, ameaçando a produtividade e a segurança alimentar.
A subida dos preços resulta, em grande medida, das tensões geopolíticas no Médio Oriente, com destaque para o conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irão, que tem afectado a produção e exportação de insumos essenciais como ureia, amónia e fosfatos. O impacto agrava-se com constrangimentos logísticos globais, incluindo o aumento dos custos de transporte marítimo.
Num país altamente dependente da importação de fertilizantes cerca de 129.990 toneladas adquiridas em 2025, o choque externo tende a repercutir-se directamente nos custos de produção agrícola. A situação é particularmente crítica num contexto em que grande parte dos solos nacionais apresenta baixa fertilidade natural, exigindo fertilização constante para garantir rendimentos mínimos.


Segundo especialistas do sector, a produtividade agrícola em Angola permanece estruturalmente baixa. No caso do milho, por exemplo, a produção média ronda duas toneladas por hectare, muito aquém da média global superior a sete toneladas, evidenciando o impacto directo da limitação no acesso a fertilizantes.
Do lado dos operadores de mercado, o cenário é de elevada incerteza. Importadores indicam dificuldades em realizar novas encomendas, devido ao desequilíbrio entre oferta e procura no mercado internacional. Em paralelo, os custos logísticos dispararam com o preço dos contentores entre a Ásia e África a subir cerca de 50% em poucas semanas pressionando ainda mais o preço final dos produtos.
Embora o impacto imediato seja atenuado pelo fim da actual campanha agrícola, o risco concentra-se na época 2026–2027, quando os novos preços deverão reflectir integralmente o choque global. A ureia, um dos principais fertilizantes utilizados, já registou aumentos na ordem dos 100% no mercado internacional.
Pequenos produtores mais vulneráveis

O aumento dos preços tende a afectar de forma desproporcional os pequenos agricultores, responsáveis por mais de 80% da produção nacional. Há receios de que, em cenários de escassez, os fertilizantes sejam direccionados prioritariamente para grandes explorações, ampliando desigualdades no sector.
Além disso, muitos produtores já operam sob forte pressão financeira, recorrendo a crédito para adquirir insumos, o que aumenta o risco de endividamento num contexto de custos crescentes e margens reduzidas.
Perante este cenário, ganha força o debate sobre a necessidade de reduzir a dependência externa. A futura fábrica de fertilizantes no Soyo é vista como um projecto estratégico, capaz de mitigar choques externos e estabilizar o abastecimento interno.
A ausência de capacidade produtiva nacional expõe Angola à volatilidade dos mercados internacionais, num momento em que a segurança alimentar e o aumento da produção agrícola são prioridades económicas.

