A Sonangol anunciou que está em negociações com instituições financeiras chinesas para garantir um empréstimo de 4,8 mil milhões de dólares destinado a financiar parcialmente a nova refinaria no porto atlântico do Lobito. Trata-se do primeiro financiamento deste tipo entre Angola e a China desde 2017.
O Presidente do Conselho de Administração, Sebastião Gaspar Martins, confirmou que o financiamento visa cobrir uma fase do projecto avaliada em 6,2 mil milhões de dólares, com o apoio de uma empreiteira chinesa. Uma delegação da empresa deverá deslocar-se a Pequim em Abril para aprofundar as negociações.
O dado mais relevante, porém, é político e financeiro: segundo a administração, os termos do empréstimo não incluem petróleo como garantia — uma ruptura com o modelo anterior de financiamento baseado em recursos naturais.
Mudança no padrão de endividamento
Angola reduziu significativamente a exposição a empréstimos garantidos por petróleo a partir de 2017, numa altura em que a volatilidade dos preços das commodities expôs fragilidades no modelo de dívida colateralizada por crude.

Os financiamentos chineses ao continente africano atingiram o pico em 2019 e recuaram acentuadamente durante a pandemia, deixando vários projectos estruturantes sob pressão financeira. Ainda assim, Pequim mantém a narrativa de apoio ao investimento e comércio africanos.
No caso angolano, a dívida à China garantida por petróleo caiu quase 25% no último ano, fixando-se em 7,73 mil milhões de dólares — um sinal de desalavancagem progressiva, mas ainda com peso relevante nas contas públicas.
Refinaria do Lobito: projecto estratégico
O Executivo angolano classifica a refinaria do Lobito como um projecto estratégico para reduzir a dependência de importação de combustíveis e reforçar a capacidade de refinação nacional. O arranque da produção está previsto para Dezembro de 2027.


Do ponto de vista económico, o projecto pode representar uma viragem estrutural se cumprir três objectivos: reduzir a factura de importação de derivados, criar valor acrescentado interno e melhorar a balança comercial energética.
A decisão de abandonar garantias petrolíferas pode ser interpretada como sinal de maior maturidade financeira, mas também implica maior escrutínio sobre a viabilidade económica do projecto.
Contudo, o desafio é evidente: financiamento externo elevado, contexto global incerto e histórico recente de ajustamento fiscal.
O Lobito pode tornar-se símbolo de diversificação industrial. Ou mais um teste à disciplina financeira do país.

