O sector do ouro consolidou-se como a principal fonte de receitas do Sudão, numa altura em que o país enfrenta o quarto ano consecutivo de guerra civil. Dados divulgados pela Companhia Sudanesa de Recursos Minerais indicam que as receitas provenientes da mineração artesanal superaram em 113% as metas previstas para o primeiro trimestre de 2026, evidenciando a crescente dependência da economia sudanesa em relação ao metal precioso.
A produção total de ouro atingiu 89% do volume inicialmente planeado para o período, num cenário em que a agricultura, o comércio e outras actividades económicas continuam profundamente afectados pelos confrontos entre as forças armadas sudanesas e as Forças de Apoio Rápido (RSF). O ouro tornou-se, assim, um dos poucos sectores capazes de gerar divisas e sustentar parcialmente as finanças públicas do país.
Actualmente, o metal representa mais de 58% do valor total das exportações sudanesas. Em 2023, o Sudão exportou mercadorias avaliadas em cerca de 5 mil milhões de dólares, dos quais mais de 1 bilião correspondeu ao ouro, ficando apenas atrás do petróleo bruto em termos de contribuição para as receitas externas.


Apesar do crescimento da produção, o Governo admite dificuldades no controlo do comércio informal e do contrabando. Segundo o ministro das Finanças, Gibril Ibrahim, o país produziu aproximadamente 70 toneladas de ouro em 2025, mas apenas uma pequena parcela foi oficialmente exportada. Dados do Banco Central mostram que os canais formais registaram exportações de apenas 14,7 toneladas, avaliadas em 1,5 mil milhões de dólares.
A mineração artesanal continua a dominar o sector, representando cerca de 80% da produção nacional de ouro. Grande parte da actividade concentra-se nos estados do Nilo, Norte e Mar Vermelho, envolvendo centenas de milhares de trabalhadores informais. A falta de regulamentação limita a capacidade do Estado de arrecadar receitas fiscais e controlar o fluxo de exportações.

O conflito também alterou o equilíbrio económico e militar nas zonas mineiras. Enquanto as Forças Armadas Sudanesas mantêm controlo sobre várias reservas no leste do país, as RSF dominam importantes áreas auríferas no centro e sudoeste. Analistas consideram que o controlo das minas e das rotas de exportação passou a desempenhar um papel estratégico no financiamento da guerra.
Apesar da instabilidade, o sector continua a atrair investidores estrangeiros, sobretudo da China, Rússia e países do Golfo. Empresas associadas a interesses russos foram alvo de atenção internacional devido a alegações relacionadas com exportações paralelas de ouro e financiamento indirecto do conflito.
Ao mesmo tempo, algumas multinacionais reduziram exposição ao país, como a australiana Perseus Mining, que vendeu a sua participação num projecto aurífero sudanês devido à deterioração da segurança.
Os Emirados Árabes Unidos continuam a ser o principal destino do ouro sudanês, absorvendo praticamente todas as exportações oficiais registadas. Contudo, as tensões diplomáticas entre Cartum e Abu Dhabi levaram o Sudão a procurar novos compradores, incluindo a Arábia Saudita.


Paralelamente, organizações internacionais alertam que o contrabando continua a desviar centenas de toneladas de ouro africano todos os anos, enfraquecendo as receitas oficiais e dificultando os esforços de estabilização económica do país.

