Um consórcio internacional de empresas do sector cafeeiro lançou uma nova iniciativa tecnológica para monitorizar o desmatamento associado à produção de café, numa tentativa de proteger cadeias de abastecimento globais e cumprir exigências ambientais cada vez mais rigorosas. O projecto surge num momento em que regulações internacionais ameaçam restringir o acesso a mercados estratégicos, sobretudo na Europa.
A iniciativa, denominada Coffee Canopy, reúne empresas como JDE Peet’s, Tchibo, Louis Dreyfus Company, Sucden, Neumann Kaffee Gruppe, Touton e Sucafina. O sistema utiliza imagens de satélite fornecidas pela Airbus combinadas com inteligência artificial para mapear explorações agrícolas e detectar alterações na cobertura florestal.



Do ponto de vista empresarial, o projecto responde directamente ao novo regulamento da União Europeia sobre desflorestação, que entra em vigor de forma faseada até 2027. A legislação proíbe a entrada de produtos agrícolas provenientes de áreas desmatadas após 2020, criando um risco real de exclusão para produtores que não consigam comprovar a origem sustentável da sua produção.
A primeira fase da implementação irá abranger países-chave da África Oriental, incluindo Etiópia, Quénia, Uganda, Tanzânia, Ruanda e Burundi, regiões críticas para a produção global de café e altamente dependentes de pequenos agricultores. A ambição é expandir o sistema para cobertura global até 2027.


Para as empresas envolvidas, a iniciativa vai além da conformidade regulatória. Trata-se de um investimento estratégico na rastreabilidade, transparência e sustentabilidade, factores cada vez mais valorizados por investidores e consumidores. Ao garantir dados mais precisos, as companhias procuram reduzir riscos reputacionais e assegurar acesso contínuo aos mercados premium.
Contudo, o projecto também evidencia desafios estruturais do sector. A falta de dados fiáveis sobre uso do solo tem levado à classificação incorrecta de explorações agrícolas como áreas florestais, o que pode penalizar milhões de pequenos produtores. Sem soluções tecnológicas como esta, muitos agricultores correm o risco de serem excluídos de cadeias globais de valor, independentemente das suas práticas sustentáveis.

Ao disponibilizar a plataforma para governos, produtores e actores da indústria, o consórcio procura criar um ecossistema mais colaborativo. Ainda assim, o sucesso da iniciativa dependerá da capacidade de implementação no terreno, da adesão dos produtores e da harmonização entre tecnologia, regulação e realidade agrícola nos países produtores.

