Um novo relatório da African Finance Corporation revela que a crescente base de capital interno de África, estimada em mais de 4 biliões de dólares, não está a gerar empregos em larga escala nem a impulsionar a industrialização do continente. O documento alerta para uma falha estrutural na forma como os recursos financeiros são aplicados nas economias africanas.
Intitulado “A África que Construímos: Do Capital aos Sistemas”, o relatório sustenta que o principal problema deixou de ser a falta de dinheiro disponível e passou a ser a má alocação do capital. Segundo a instituição, grande parte dos recursos financeiros continua concentrada em instrumentos de baixo risco e curto prazo, sem chegar aos sectores produtivos capazes de gerar emprego e crescimento sustentável.
O presidente da AFC, Samaila Zubairu, afirmou que o capital “está se acumulando em toda a África, mas não está criando empregos em larga escala”, defendendo reformas urgentes para corrigir o desequilíbrio económico. O relatório sublinha que muitos países africanos continuam dependentes da exportação de matérias-primas e da importação de produtos acabados, o que limita o desenvolvimento industrial interno.


Segundo a AFC, esse modelo económico faz com que o continente exporte empregos associados às cadeias de valor industrial e importe inflação através dos produtos transformados adquiridos no exterior. A organização considera que essa dinâmica fragiliza a competitividade africana e reduz o impacto do crescimento financeiro na economia real.
O relatório aponta ainda para o enfraquecimento do financiamento externo, com redução gradual da ajuda internacional e maior instabilidade nos mercados globais de dívida. Nesse cenário, a AFC defende que África precisa depender mais do seu próprio capital institucional, incluindo fundos soberanos, fundos de pensões, seguros e activos bancários.
Outro desafio identificado é a fragmentação das infraestruturas africanas. Apesar dos investimentos em estradas, portos e caminhos-de-ferro, muitos desses projectos funcionam de forma isolada, reduzindo a eficiência logística e o impacto económico regional. A AFC defende sistemas integrados capazes de conectar energia, indústria, transportes e mercados consumidores.

A organização alerta também que a ausência de processamento local dos recursos naturais impede maior geração de riqueza. Sectores como siderurgia, fertilizantes, alumínio e refinação são apontados como áreas estratégicas para acelerar a industrialização, desde que exista fornecimento energético estável e financiamento adequado.
Para a AFC, África enfrenta um momento decisivo, sobretudo devido ao rápido crescimento populacional e à entrada de milhões de jovens no mercado de trabalho todos os anos. O relatório conclui que transformar o capital disponível em crescimento industrial e emprego será determinante para posicionar o continente como um dos motores da economia global nas próximas décadas.

