A escalada do conflito no Médio Oriente está a provocar uma corrida ao gás natural liquefeito (GNL) na Ásia, depois de o Catar ter interrompido a produção e o transporte marítimo na região sofrer fortes constrangimentos.
Segundo a Reuters, a Índia começou esta terça-feira a racionar o fornecimento de gás a empresas, antecipando um aperto na oferta proveniente do Médio Oriente. O Catar é o segundo maior produtor mundial de GNL, atrás dos Estados Unidos, e os compradores asiáticos absorvem mais de 80% das suas exportações.
Governos e empresas no Japão, Taiwan, Bangladesh e Paquistão afirmaram não prever impactos imediatos, já que parte das cargas previstas para março já chegou ao destino. Ainda assim, todos admitem recorrer ao mercado spot e diversificar fornecedores caso o bloqueio marítimo no Estreito de Ormuz se prolongue.

Taiwan, que gera mais de 40% da sua eletricidade a partir de GNL e importa cerca de um terço do seu gás do Catar, anunciou que poderá aumentar as compras aos EUA e coordenar esforços com Coreia do Sul e Japão. O governo ativou um “mecanismo de resposta emergencial” para mitigar riscos no abastecimento energético.
No Sul da Ásia, o cenário é mais sensível. Bangladesh e Paquistão comparam a situação ao período pós-invasão russa da Ucrânia em 2022, quando os preços dispararam e ocorreram cortes prolongados de energia. Bangladesh admite que poderá reforçar importações de carvão e eletricidade da Índia se a crise se agravar.

Os preços de referência do GNL asiático subiram quase 40% na segunda-feira, enquanto o gás atacadista europeu fechou entre 35% e 40% acima. A principal preocupação, admitem responsáveis do setor, não é apenas a disponibilidade física das cargas, mas o preço. “A verdadeira questão é até onde os preços podem subir — e muitos países simplesmente não conseguem suportar esses níveis”, disse um executivo do setor.
O episódio expõe, mais uma vez, a vulnerabilidade estrutural da Ásia à volatilidade energética. Quando o Médio Oriente treme, o mercado global de gás sente — e os países mais dependentes pagam a fatura primeiro.

