A recente decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre as tarifas impostas pelo presidente Donald Trump não encerrou o ambiente de incerteza política que continua a pressionar as condições globais de crédito. A avaliação consta numa atualização especial da S&P Global Ratings, que sublinha que a medida não altera, por ora, a sua perspetiva de classificação de risco.



Segundo a agência, apesar da decisão judicial limitar o uso da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), o governo norte-americano rapidamente substituiu as tarifas anteriores por uma taxa global de 10% por 150 dias, com possibilidade de aumento para 15%, ao abrigo da Seção 122 da Lei de Comércio de 1974.
Crescimento e juros mantidos nas projeções

A S&P considera que a nova configuração tarifária não altera as suas previsões macroeconómicas para os Estados Unidos. A agência mantém:
- Perspetiva estável para o crescimento do PIB e do emprego
- Expectativa de corte de 50 pontos-base na taxa dos fundos federais até o final do ano
- Taxa de juros projetada entre 3,0% e 3,25%
Embora a taxa tarifária média ponderada seja ligeiramente inferior à anterior (cerca de 15%, contra 17%–19% sob a IEEPA), ela continua sendo a mais elevada desde 1946, excluindo 2025.
Empresas enfrentam margens pressionadas
O impacto das tarifas permanece desigual entre setores. Empresas com menor capacidade de repassar custos aos consumidores, como montadoras, enfrentam maior pressão sobre margens. Já fabricantes de bens de capital têm conseguido absorver melhor os impactos.
Até 6 de fevereiro, foram registadas 75 ações de classificação relacionadas a tarifas em nível global 97% negativas sendo 54 nos EUA. Os setores mais afetados incluem:
- Bens de consumo
- Automotivo
- Produtos químicos
- Embalagens e serviços ambientais
- Varejo e restaurantes
Ainda assim, a agência não espera que a decisão judicial represente um ponto de inflexão significativo nas classificações de risco.
Incerteza política continua como principal risco
A S&P destaca que o risco central permanece político. A administração norte-americana sinaliza manutenção de tarifas elevadas por diferentes mecanismos legais, incluindo investigações ao abrigo das Secções 232 e 301.

Além disso, persistem dúvidas sobre o futuro do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA), especialmente diante de revisões previstas para julho.
O compromisso com tarifas elevadas também visa gerar receita fiscal. No entanto, segundo a agência, será a trajetória do défice determinada pela combinação entre receitas totais e execução de despesas que definirá a sustentabilidade fiscal dos EUA.
Impactos globais
Ásia-Pacífico
A nova tarifa universal pode criar condições mais homogéneas entre exportadores globais. A China pode beneficiar-se de tarifas mais baixas sobre determinados produtos, impulsionando exportações. No entanto, países como Austrália e Singapura enfrentam elevação tarifária.
Europa
A região continua exposta a dois riscos principais: incerteza comercial e tensões geopolíticas. A ratificação de acordos com os EUA pode ser afetada, enquanto a Europa também enfrenta o risco de ficar no meio da rivalidade entre Washington e Pequim.
Mercados emergentes

O impacto macroeconómico imediato é limitado, mas a incerteza pode enfraquecer o crescimento global, pressionar commodities e restringir condições de financiamento externo. México e economias asiáticas emergentes seguem entre as mais expostas.
Geopolítica adiciona nova camada de risco
Além das tensões comerciais, a agência aponta riscos geopolíticos crescentes, incluindo a possibilidade de conflitos no Médio Oriente e oscilações nos preços do petróleo, fatores que podem gerar maior volatilidade financeira global.
Para a S&P Global Ratings, a decisão da Suprema Corte não elimina o principal fator de preocupação: a elevada incerteza política nos Estados Unidos.
Embora o impacto direto nas classificações de risco tenha sido até agora limitado, o ambiente de tarifas elevadas, revisões comerciais e tensões geopolíticas continua a representar um risco estrutural para as condições de crédito globais em 2026.
