Um novo estudo da S&P Global alerta para um cenário de forte pressão sobre o mercado mundial de cobre nas próximas décadas. O relatório “Cobre na Era da IA” projeta que a procura global do metal poderá crescer 50% até 2040, impulsionada pela eletrificação, pela inteligência artificial, pelos veículos elétricos, pela transição energética e pelo aumento dos investimentos em defesa. Sem uma expansão significativa da oferta, o mundo poderá enfrentar um défice de até 10 milhões de toneladas métricas.
O estudo resulta da colaboração de várias equipas multissetoriais da S&P Global e apresenta uma análise independente sobre as perspetivas globais de oferta e procura até 2040, sem recomendações políticas.
Um metal estratégico desde o século XIX
Desde 1882, quando Thomas Edison instalou 24 mil metros de fios de cobre sob as ruas de Manhattan para alimentar o seu sistema elétrico, o metal consolidou-se como a espinha dorsal da eletrificação moderna. Hoje, é considerado um dos materiais mais estratégicos da economia global.


Nos últimos anos, vários países passaram a classificar o cobre como “metal crítico”, incluindo os Estados Unidos em 2025, reforçando o seu papel central na infraestrutura, tecnologia, mobilidade elétrica e sistemas de segurança.
Procura pode atingir 42 milhões de toneladas até 2040
Segundo o relatório, a procura global deverá passar de 28 milhões de toneladas métricas em 2025 para 42 milhões em 2040.

Esse crescimento ocorre num contexto de forte expansão do consumo de eletricidade. No cenário base da S&P Global:
- A procura global por eletricidade aumentará quase 50% até 2040
- Nos EUA, o crescimento pode atingir 2,5% ao ano
- Na China, 3,2% ao ano
- Na Índia, 4,2% ao ano
Como o cobre é essencial para geração, transmissão e utilização de eletricidade, a expansão elétrica global traduz-se diretamente numa maior necessidade do metal.
Inteligência Artificial cria novo vetor de pressão
Um dos fatores mais recentes e relevantes é o avanço da Inteligência Artificial (IA). O lançamento do ChatGPT em novembro de 2022 marcou o início de uma nova fase de expansão tecnológica, desencadeando investimentos massivos em chips, data centers e infraestrutura elétrica.
Os data centers altamente intensivos em energia exigem cobre para:
- Cablagem elétrica
- Sistemas de refrigeração
- Infraestrutura de TI
- Expansão da rede elétrica de suporte

Até 2030, apenas os data centers poderão representar entre 5% e 14% do consumo total de eletricidade nos Estados Unidos, segundo o estudo.
Embora a IA não seja o maior vetor de procura, ela evidencia a crescente dependência da eletrificação e, consequentemente, do cobre.
Quatro grandes motores da procura
O relatório identifica quatro vetores principais:
1. Demanda económica essencial
Inclui construção civil, eletrodomésticos, indústria e urbanização. Países em desenvolvimento poderão adicionar até dois mil milhões de novos aparelhos de ar-condicionado até 2040, elevando significativamente o consumo elétrico.
2. Transição e expansão energética
Os veículos elétricos utilizam cerca de 2,9 vezes mais cobre do que veículos convencionais.
Mais de 90% da nova capacidade elétrica instalada globalmente em 2025 foi proveniente de fontes solares e eólicas, que também exigem grandes volumes de cobre.
Além disso, a substituição da lenha por eletricidade em países em desenvolvimento especialmente em África, aumentará a pressão sobre sistemas elétricos e redes de distribuição.
3. Defesa e segurança
O aumento das tensões geopolíticas e o compromisso dos membros da OTAN de elevar gastos militares para 5% do PIB indicam crescimento no investimento em sistemas eletrificados de defesa. A procura de cobre associada ao setor poderá triplicar até 2040.
4. Robótica humanoide (vetor emergente)

Embora ainda incertas, projeções indicam que dezenas ou centenas de milhões de robôs humanoides poderão estar em operação até 2040 — todos densamente conectados com cobre.
Oferta sob pressão e risco de escassez
Apesar da procura crescente, a oferta enfrenta desafios estruturais:
- Envelhecimento de minas existentes
- Diminuição da qualidade dos minérios
- Longos prazos para desenvolvimento de novos projetos
- Complexidades regulatórias e ambientais
Sem investimentos significativos em exploração e produção, o mercado poderá enfrentar um défice de 10 milhões de toneladas métricas até 2040.
O dilema global


O estudo resume o cenário com um paradoxo central:
O cobre é o facilitador da eletrificação, mas a velocidade da eletrificação está a criar um desafio crescente para o próprio cobre.
A transformação digital, a inteligência artificial, a mobilidade elétrica, a expansão energética e a segurança nacional dependem de um insumo cuja oferta pode não acompanhar o ritmo da mudança.

O relatório da S&P Global coloca, assim, o cobre no centro do debate estratégico global para as próximas décadas não apenas como commodity industrial, mas como elemento-chave da nova economia eletrificada.
