A Costa do Marfim decidiu reduzir em 57% o preço pago aos produtores de cacau, fixando o valor em 1.200 francos CFA (cerca de US$ 2,13 por kg) para a safra intermédia de 2025/2026. A medida foi anunciada pelo ministro da Agricultura, Bruno Koné, e entra em vigor num momento de forte volatilidade dos preços internacionais da commodity.
A decisão contrasta com o valor anterior pago na safra principal, que chegou a 2.800 francos CFA por kg, evidenciando um ajuste significativo na política de remuneração agrícola do país. O governo justificou a medida como uma resposta direta à queda dos preços globais do cacau, procurando alinhar os pagamentos internos às condições do mercado internacional.
No mercado global, o cacau tem registado forte correção após atingir níveis históricos em 2024, quando os preços chegaram a ultrapassar os US$ 12.000 por tonelada em Nova Iorque. Atualmente, os contratos futuros rondam os US$ 3.000 por tonelada, refletindo uma desaceleração da procura e ajustes de inventários por parte dos comerciantes internacionais.


A pressão sobre o setor já se faz sentir nas cadeias de comercialização, com redução das compras e aumento dos stocks não vendidos. Em resposta, o governo da Costa do Marfim lançou um programa de compra de produção para garantir liquidez aos agricultores, mobilizando cerca de 280 mil milhões de francos CFA (aproximadamente US$ 496 milhões) para absorver parte da produção e estabilizar o mercado interno.
Apesar do corte, a Costa do Marfim mantém uma posição competitiva face a outros grandes produtores, como Gana, que também ajustou os preços pagos aos agricultores. Esta estratégia visa reduzir fluxos ilegais de cacau entre fronteiras e preservar a competitividade das exportações marfinenses num mercado global cada vez mais sensível a preços.


O setor enfrenta, no entanto, desafios estruturais relevantes, incluindo dependência elevada das exportações de cacau, vulnerabilidade a choques de preços e pressão sobre a renda dos pequenos produtores. A redução dos preços pagos pode ter impacto direto na capacidade de investimento dos agricultores e na sustentabilidade das explorações.
Ainda assim, o governo aposta numa gestão mais alinhada ao ciclo internacional da commodity, procurando equilibrar a estabilidade fiscal, a competitividade externa e a continuidade da produção. A evolução das próximas campanhas será decisiva para medir o impacto desta política na economia rural e na posição global da Costa do Marfim como maior produtor mundial de cacau.

