Burkina Faso avançou com uma decisão estrutural de política económica ao aprovar a nacionalização total da Société burkinabè des fibres textiles (Sofitex), empresa estatal do sector algodoeiro avaliada em cerca de US$ 607 milhões (338,14 mil milhões de francos CFA). A medida implica a compra das participações remanescentes de acionistas privados, consolidando o Estado como único proprietário da principal plataforma de exportação de algodão do país.
A decisão foi aprovada pelo Conselho de Ministros em 16 de Abril de 2026 e enquadra-se numa estratégia mais ampla de reforço da presença estatal em sectores considerados estratégicos para a geração de receitas externas. O governo justificou a operação como sendo de interesse público, num contexto de reestruturação económica que já vinha a ocorrer no sector mineiro.
Segundo a avaliação governamental realizada em 2025, a participação privada na Sofitex estava estimada em pouco mais de 75 mil milhões de francos CFA, correspondendo a cerca de 976.400 ações. A aquisição total destas posições pelo Estado representa uma consolidação financeira significativa, mas também levanta questões sobre o impacto da centralização da gestão num sector já pressionado por queda de produtividade.


A nacionalização ocorre num momento sensível para a indústria algodoeira do país, que registou uma produção de 292.660 toneladas métricas na safra 2024/2025, uma queda de aproximadamente 24%, marcando o terceiro ano consecutivo de retração. A Sofitex é responsável por cerca de 80% da produção nacional, o que torna a sua performance determinante para as exportações agrícolas do país.
No plano económico, o governo defende que o controlo total permitirá maior disciplina financeira, reorganização operacional e melhoria da governança corporativa, com o objetivo de recuperar a produção para níveis próximos de 550 mil toneladas métricas. No entanto, analistas apontam que a eficácia dessa estratégia dependerá da capacidade do Estado em gerir eficiência produtiva num sector altamente exposto a volatilidade climática e de mercado.


A decisão também reforça uma tendência regional de aumento da intervenção estatal em sectores estratégicos. Burkina Faso já havia intensificado o controlo sobre a mineração de ouro responsável por mais de 70% das exportações através de revisões legislativas e aumento da participação pública em projetos mineiros, incluindo negociações para ampliar a fatia estatal em operações como a mina de Kiaka.
Este movimento aproxima o país de outros modelos africanos recentes, como Mali, Guiné e Tanzânia, que também têm aumentado a participação do Estado em sectores de recursos naturais. A convergência dessas políticas indica uma reconfiguração do papel do Estado na economia, especialmente em países dependentes de exportações primárias.

No caso específico do algodão, a nacionalização da Sofitex pode redefinir a estrutura de investimento agrícola, influenciar cadeias de valor e alterar o equilíbrio entre eficiência de mercado e controlo estatal, num sector que continua a ser um dos pilares da economia exportadora de Burkina Faso.

