O Banco de Portugal recomendou que os cidadãos mantenham uma reserva de dinheiro físico em casa, sinalizando uma mudança relevante no discurso institucional sobre meios de pagamento num contexto de crescente digitalização financeira. A orientação surge após a divulgação do Relatório da Emissão Monetária de 2025 e reflete preocupações práticas com a resiliência do sistema em cenários de disrupção.
A recomendação ganha peso após o impacto do apagão de 28 de abril, que expôs vulnerabilidades nos sistemas eletrónicos de pagamento. Durante o episódio, registou-se um aumento significativo nas operações de levantamento em caixas automáticos, evidenciando a dependência do numerário em situações de emergência e reforçando o seu papel como mecanismo de continuidade económica.


Do ponto de vista operacional, o banco central destaca que falhas no fornecimento de energia, telecomunicações ou infraestruturas digitais podem comprometer pagamentos eletrónicos, afetando setores críticos como alimentação, combustíveis e saúde. Nesse contexto, o dinheiro físico assume uma função estratégica, permitindo liquidez imediata e autonomia dos consumidores em cenários de crise.
Os dados do relatório indicam ainda uma dinâmica mista no uso de numerário: enquanto a emissão líquida de notas diminuiu, sugerindo mudanças nos hábitos de pagamento, há sinais de utilização do dinheiro físico como reserva de valor. Em 2025, o banco central analisou centenas de milhões de notas e moedas e reembolsou 11,3 milhões de euros em numerário danificado, refletindo a relevância contínua deste meio na economia.


Em termos económicos, a recomendação do Banco de Portugal revela uma abordagem prudencial que combina modernização digital com gestão de risco sistémico. Ao incentivar a manutenção de liquidez física, a instituição reforça a necessidade de equilíbrio entre inovação financeira e resiliência operacional, num ambiente marcado por incertezas tecnológicas e eventos imprevistos.

