A escalada das tensões entre os Estados Unidos e o Irã está a amplificar vulnerabilidades estruturais nas economias africanas, agravando uma crise de dívida que já vinha se intensificando desde a pandemia.
Dados recentes indicam que os custos médios de financiamento quase duplicaram entre 2020 e 2024, refletindo um ambiente global de crédito mais restritivo e maior aversão ao risco por parte dos investidores.
Este cenário tem impacto direto sobre a capacidade dos governos africanos de financiar projetos estratégicos, limitando investimentos em infraestrutura, saúde e diversificação económica.
Segundo a ONE Data, as taxas de empréstimos do Banco Mundial através do BIRD subiram de 1,4% em 2020 para 5,2% em 2024, enquanto os financiamentos chineses passaram de 2,5% para 5,7% no mesmo período.
Este encarecimento do crédito ocorre num momento crítico, em que muitos países ainda carregam elevados níveis de endividamento herdados da crise sanitária.
A guerra no Médio Oriente surge, assim, como um catalisador adicional, pressionando os preços globais de energia e alimentos e alimentando riscos inflacionários que corroem o poder de compra e aumentam custos operacionais.


Apesar de sinais pontuais de recuperação de acesso aos mercados como a emissão de eurobônus por países como a República Democrática do Congo e o retorno de Angola aos mercados internacionais os spreads soberanos continuam elevados, refletindo a perceção de risco persistente.
De acordo com o JPMorgan Chase, os spreads africanos, embora tenham recuado ligeiramente, permanecem em níveis que encarecem significativamente o serviço da dívida e restringem novas captações.
O agravamento das condições financeiras impõe um ambiente mais desafiador para investimentos privados e parcerias público-privadas, ao mesmo tempo que aumenta o risco de atrasos em projetos estruturantes.
Por outro lado, cria oportunidades para investidores com maior tolerância ao risco e para instituições multilaterais que possam oferecer soluções de financiamento mais flexíveis.
Sem medidas de alívio ou reestruturação, analistas alertam para a possibilidade de um novo ciclo de estagnação económica no continente, reforçando a necessidade de reformas fiscais, diversificação de receitas e maior resiliência às oscilações externas.

