Ministros do Comércio de vários países reúnem-se esta semana em Yaoundé, em Camarões, para negociações consideradas críticas sobre a reforma da Organização Mundial do Comércio, num momento em que o sistema multilateral enfrenta forte instabilidade e falta de consenso entre as principais potências económicas.
O encontro decorre num contexto de tensão no comércio internacional, marcado por disputas tarifárias, instabilidade geopolítica e preocupações com o impacto económico da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irão. Analistas alertam para efeitos em cadeia sobre os preços da energia e segurança alimentar, especialmente em África.
“Do ponto de vista empresarial, esta poderá vir a ser a pior crise industrial da história recente”, afirmou John Denton, secretário-geral da Câmara de Comércio Internacional, destacando os riscos associados ao aumento dos custos energéticos e à interrupção das cadeias de fornecimento, incluindo fertilizantes.
Após anos de impasses e paralisia no sistema de resolução de disputas, os ministros chegam a Yaoundé sem um roteiro claro para reformas estruturais. Enquanto a União Europeia, o Reino Unido e a China defendem um plano de trabalho detalhado, os Estados Unidos apoiam reformas, mas resistem a compromissos mais específicos.
A diretora-geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala, reconheceu que as negociações serão difíceis, reflectindo a profundidade das divergências entre os membros.


Risco de colapso do sistema multilateral
Diplomatas alertam que, caso não seja alcançado um acordo, os países poderão começar a estabelecer regras comerciais fora da estrutura da OMC, o que pode acelerar a fragmentação do comércio global.
“Se não conseguirmos nada de concreto, a OMC perderá sua atratividade e relevância”, afirmou o embaixador suíço Erwin Bollinger. Já o ministro do Comércio do Reino Unido, Chris Bryant, alertou que a ausência de consenso pode levar a um “colapso desordenado” da organização e à criação de novas regras comerciais paralelas.
Conflitos comerciais e impasses tecnológicos na agenda
As negociações também devem ser marcadas por divergências entre os Estados Unidos e a Índia sobre a moratória das tarifas alfandegárias em transmissões digitais, com Washington a defender uma extensão permanente e Nova Deli a resistir à proposta.
Paralelamente, a Coreia do Sul alertou que a não prorrogação da moratória poderá representar um impacto significativo para a economia global, enquanto Taiwan ficou de fora do encontro após divergências diplomáticas com o país anfitrião.

