A The Nature Conservancy (TNC) revelou que está em negociações com três países africanos para estabelecer acordos de troca de dívida por natureza, num montante superior a 500 milhões de dólares, com o objectivo de financiar a preservação de ecossistemas críticos no continente.
A informação foi avançada pelo director regional da organização para África, Ademola Ajagbe, em entrevista à Reuters, indicando que pelo menos um dos acordos poderá ser concluído ainda este ano, enquanto os restantes estão previstos para 2027.

Iniciativa visa reduzir dívida e financiar conservação ambiental
As trocas de dívida por natureza permitem que países com elevados níveis de endividamento reduzam os seus encargos financeiros em troca de compromissos concretos na conservação ambiental.
Este modelo já foi aplicado com sucesso em países como Seychelles e Gabão, que utilizaram este mecanismo na última década para proteger os seus recursos naturais, ao mesmo tempo que aliviaram a pressão da dívida pública.
Segundo Ajagbe, os novos acordos em análise envolvem parcerias com bancos multilaterais, seguradoras privadas e fundos de investimento, numa tentativa de revitalizar este tipo de financiamento sustentável.
“Temos projetos em análise com três países diferentes… estamos falando de um valor superior a US$ 500 milhões (no total)”, afirmou.
Custos elevados de financiamento aumentam interesse por novos mecanismos
O responsável destacou que o aumento global dos custos de financiamento tem limitado a capacidade dos países africanos de investir na protecção dos seus recursos naturais.
“Há uma multiplicidade de fatores que limitam a capacidade da África de investir dinheiro na proteção de seus recursos naturais. Parte do problema é que o custo do capital está aumentando, o que nos coloca em uma posição muito desvantajosa”, explicou.
A pressão financeira tem sido agravada por factores externos, incluindo tensões geopolíticas e volatilidade nos mercados, que dificultam o acesso ao crédito por parte das economias africanas.
Apesar de ser um dos continentes mais afectados pelas alterações climáticas, com registo recente de cheias, secas e deslizamentos de terra, África recebe apenas cerca de 1% do financiamento climático global anual.


Países como Quênia e Zâmbia têm enfrentado impactos significativos em sectores-chave, como o turismo, a produção alimentar e a energia hidroeléctrica.
Além disso, segundo Ajagbe, parte do financiamento internacional tem sido redireccionado para áreas ligadas à defesa, reduzindo os recursos disponíveis para projectos ambientais e de desenvolvimento sustentável.
Gabão mantém compromissos apesar de instabilidade política
O director da TNC sublinhou ainda que o Gabão continua a cumprir os compromissos assumidos no âmbito do acordo de troca de dívida firmado em 2023, mesmo após a instabilidade política registada no país.
De acordo com o responsável, as discussões actuais apontam para uma expansão do modelo, incluindo não apenas a conservação marinha, mas também florestas e recursos de água doce.
“O governo atual, neste momento, está honrando o compromisso assumido pela administração anterior. Estamos olhando para o oceano, as florestas e a água doce. Portanto, é um escopo mais amplo, uma visão abrangente maior”, afirmou.
A retoma das trocas de dívida por natureza surge como uma alternativa estratégica para países africanos enfrentarem simultaneamente desafios financeiros e ambientais.
Ao permitir a redução da dívida e o financiamento da conservação, estes mecanismos podem contribuir para a protecção da biodiversidade, o fortalecimento das economias locais e a promoção de um desenvolvimento mais sustentável no continente.

