A adopção de novas leis de segurança digital voltadas para crianças está a acelerar a utilização de tecnologias de verificação de idade em plataformas online, à medida que governos de diferentes regiões procuram limitar o acesso de menores a redes sociais, conteúdos pornográficos e serviços de inteligência artificial.
Durante anos, grandes empresas tecnológicas argumentaram que restringir o acesso de adolescentes seria tecnicamente difícil e poderia criar riscos para a privacidade e segurança dos utilizadores. No entanto, reguladores afirmam agora que os avanços tecnológicos tornaram essas barreiras menos relevantes.
Nos últimos meses, países e autoridades reguladoras na Europa, no Brasil e em vários estados dos Estados Unidos começaram a avançar com regras mais rígidas para verificar a idade dos utilizadores.


A iniciativa ganhou força depois que a Austrália aprovou uma proibição histórica de contas em redes sociais para adolescentes. O movimento também atraiu atenção de líderes políticos norte-americanos, incluindo o governador da Califórnia, Gavin Newsom, e do presidente Donald Trump.
Tecnologia de verificação evolui com apoio da inteligência artificial
O avanço recente da inteligência artificial tem melhorado significativamente a capacidade dos sistemas de verificação de idade, segundo especialistas e organizações de defesa da segurança infantil.
Ferramentas modernas conseguem estimar a idade de um utilizador através de reconhecimento facial, análise de documentos de identidade, autorização parental e padrões de comportamento digital.

Grandes empresas tecnológicas como Meta, TikTok e OpenAI já utilizam sistemas fornecidos por empresas especializadas para reforçar o controlo de idade nas suas plataformas.
“O mercado de verificação de idade amadureceu bastante nos últimos dois anos”, afirmou Ariel Fox Johnson, consultora sénior da Common Sense Media.
Novo sector de tecnologia cresce rapidamente
Um número crescente de empresas especializadas fornece ferramentas automatizadas de verificação de idade para plataformas digitais. Entre os principais fornecedores estão a Yoti, a Persona e a k-ID.
Essas soluções utilizam tecnologias como escaneamento facial e análise automática de documentos de identidade emitidos por governos para confirmar a idade aproximada dos utilizadores.

Ao mesmo tempo, empresas de tecnologia como Apple e Alphabet passaram a oferecer ferramentas que permitem aos pais informar a faixa etária dos filhos aos desenvolvedores de aplicações.
Segundo Merritt Maxim, vice-presidente da empresa de pesquisa Forrester, o custo dessas verificações caiu drasticamente.
“A tecnologia definitivamente melhorou, não apenas para verificação de idade especificamente, mas para verificação de identidade em geral.”
Actualmente, verificações automatizadas podem custar menos de um dólar por utilizador e, em grandes volumes, apenas alguns cêntimos.
Precisão do reconhecimento facial aumenta
Estudos independentes também apontam para melhorias significativas na precisão dessas tecnologias. De acordo com testes conduzidos pelo National Institute of Standards and Technology, a margem média de erro de softwares de estimativa de idade caiu de 4,1 anos em 2014 para cerca de 2,5 anos atualmente.
Empresas como a Yoti afirmam que novos modelos podem atingir níveis de precisão ainda maiores. O mais recente sistema da companhia britânica apresenta um erro médio de apenas 1,04 ano para jovens entre 14 e 18 anos.
Mesmo assim, especialistas alertam que alguns utilizadores tentam contornar os sistemas utilizando maquilhagem pesada, máscaras ou até objectos como bonecos para enganar os sensores.
“Se você aparenta ser jovem, pode ser questionado e ter que apresentar um documento de identidade”, explicou Robin Tombs, director-executivo da Yoti.
Resultados iniciais da experiência australiana
A implementação da nova lei na Austrália já começou a produzir resultados iniciais. Segundo a agência reguladora eSafety Commissioner, cerca de 4,7 milhões de contas suspeitas de pertencerem a menores foram bloqueadas desde que a legislação entrou em vigor em dezembro.
A Meta informou que removeu aproximadamente 550 mil contas do Instagram, Facebook e Threads suspeitas de pertencer a menores de idade. Já o Snapchat afirmou ter eliminado cerca de 415 mil contas.

Outros governos estão agora a acompanhar de perto os resultados. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deverá discutir o tema durante uma visita à Austrália.
Apesar do progresso tecnológico, alguns especialistas alertam que as plataformas digitais podem não estar totalmente motivadas para aplicar os sistemas de forma rigorosa.
“Eles estão extremamente preocupados que isso se torne contagioso e uma política adotada em todo o mundo”, afirmou Iain Corby, director-executivo da Age Verification Providers Association.
“Eles estão testando a paciência do órgão regulador para ver até onde podem ir.”

