Os comerciantes de carne na Nigéria enfrentam uma nova onda de pressão financeira após o preço do gado atingir níveis recorde no estado de Lagos, onde algumas vacas já estão a ser vendidas por valores superiores aos de determinados automóveis usados. O aumento dos custos está a reduzir margens de lucro, pressionar o preço final da carne e enfraquecer o poder de compra dos consumidores.
Segundo a Associação de Açougueiros do Estado de Lagos, o valor de uma vaca subiu para até 2,5 milhões de nairas, equivalente a cerca de 1.613 dólares, acima dos cerca de 1,7 milhão de nairas registados em 2025. A maioria dos animais é actualmente negociada entre 2,3 milhões e 2,4 milhões de nairas, confirmando uma escalada persistente num dos maiores mercados consumidores da África Ocidental.


Do ponto de vista económico, a valorização do gado reflete a combinação entre inflação estrutural, fragilidade logística e restrições na oferta. A Nigéria depende fortemente do transporte de bovinos provenientes do norte do país, principal zona pecuária nacional. No entanto, a insegurança nas estradas, ataques em rotas comerciais e custos elevados de combustíveis elevaram significativamente as despesas de transporte.
Representantes do sector alertam que muitos comerciantes já operam com margens reduzidas e alguns pequenos operadores correm o risco de abandonar a actividade. A subida do preço da carne também poderá acelerar a substituição por proteínas mais baratas, como frango e peixe, alterando padrões de consumo no mercado alimentar nigeriano.
Um dirigente da associação destacou a dimensão da crise ao afirmar que um carro adquirido em 2020 por 2,1 milhões de nairas custa hoje menos do que algumas vacas comercializadas em Lagos. O comentário ilustra a forte inflação do mercado pecuário e o desfasamento crescente entre rendimentos das famílias e preços dos alimentos.

Outro factor crítico é a ausência de produção local suficiente em Lagos. Projectos estaduais voltados para confinamento bovino e criação intensiva ainda não avançaram ao ritmo esperado, mantendo a cidade dependente de cadeias de abastecimento de longa distância. Analistas consideram que a expansão da produção local poderia reduzir custos logísticos, estabilizar a oferta e criar empregos.
O projecto Eko Ranching, previsto para Gbodu, Epe, surge como uma das apostas para aliviar a crise. Se implementado com escala, poderá fortalecer a segurança alimentar urbana, reduzir a dependência externa dentro do próprio país e impulsionar investimentos privados no agronegócio.
Para investidores e operadores do sector alimentar, a crise do gado na Nigéria evidencia oportunidades em produção pecuária moderna, armazenamento refrigerado, transporte especializado e proteínas alternativas. Ao mesmo tempo, expõe o impacto económico da insegurança e da inflação sobre cadeias essenciais de consumo.

